#1 - 01/07 - Domingo


Ex libris



Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

- Fernando Pessoa


Nossa viagem será iniciada após um voo transatlântico de quase 10h de duração, na direção oposta à tomada pela caravana de Pedro Álvares Cabral, a qual achou o Brasil para o mundo europeu há 518 anos. Começaremos um percurso de conhecimento e encontro com as raízes ibéricas, desvendando as profundezas do país com as fronteiras mais antigas da Europa. Encontraremos a cultura de uma das três raças tristes que o senso comum diz constituir a brasilidade. Será, portanto, uma viagem um tanto quanto semelhante à feita pelos navegantes portugueses: acharemos para nós os portugueses, sua longeva história e os elementos originários de parte da nossa cultura, traçando uma cartografia de afetos. 

Com o decorrer dos séculos a travessia do Atlântico tornou-se muito mais confortável, o que permitirá que pousemos no Aeroporto da Portela (Lisboa) às 11:30. Vencidas as etapas burocráticas de entrada no país e o resgate das bagagens, tomaremos um táxi para nosso hotel, o qual nos abrigará nos dias iniciais e finais de nossa jornada por Portugal. 

Ficaremos hospedados no Hotel Expo Astória, um edifício Art Déco do século XIX situado nas imediações da Praça Marquês de Pombal, personagem central na política portuguesa setecentista. Seu nome está marcado, entre tantos outros episódios, pelo grande terremoto que devastou a cidade em 1755,  na manhã do dia de Todos os SantosMarquês de Pombal imediatamente tratou da reconstrução da cidade, proferindo a frase que se eternizaria na história: "E agora? Enterram-se os mortos e cuidam-se os vivos"



Após feito o check-in e realizada a instalação no hotel, tomaremos um táxi (também acessível após 20 min. de caminhada a partir do metrô Santa Apolônia) até aquela que será a primeira atração turística da viagem, o local que servirá de ponto de partida para nossa jornada pela história do povo luso. Escolhemos como parada inicial o Museu Nacional do Azulejo por um duplo motivo. Primeiramente porque ele está instalado em um dos prédios mais antigos de Lisboa, o Convento da Madre de Deus, datado de 1509. Este prédio, construído por ordens da Rainha D. Leonor, mulher do Rei D. João II, sobreviveu intacto ao grande terremoto. Segundamente porque o azulejo tornou-se um símbolo da cultura lusa e está fortemente ligado aos desdobramentos socioculturais de Portugal. Conheceremos as origens árabes da arte da azulejaria e como se deu a sua inserção no reino português por volta do século XIII. Acompanharemos o desenvolvimento da arte e seus significados sociais - especial atenção será dada aos painéis de azulejos que retratam a ascensão de um burguês, algo como um memorial de seu crescimento econômico, pois será a aproximação deste dia com o 2o dia de nossa viagem. Uma das preciosidades abrigadas pelo museu é um painel panorâmico de azulejos retratando em detalhes a Lisboa antes do terremoto, registro único de como a capital era no período anterior ao desastre. Também merece destaque a Igreja pertencente ao complexo do convento, a qual no século XVII, a mando de D. Pedro II, ganhou luxuriante reforma e impressionante ornamentação em ouro.

(Para mais informações sobre a coleção do Museu Nacional do Azulejo, recomendo o programa da RTP "Visita Guiada", disponível na íntegra através do link: https://www.youtube.com/watch?v=reC1QSaBc8w.)




Reservaremos o restante da tarde e da noite para o (re)encontro com nossos familiares de Lisboa, e poderemos assim enriquecer mais ainda nossa aproximação com a cultura portuguesa através de agentes vivos dessa cultura. Seguindo uma visão relacionada à micro-história, podemos analisar a conjuntura social de um período tomando por exemplo a vida de uma pessoa comum que vive nessa época. Seriam nossos parentes testemunhos interessantes e boas fontes para tentarmos colher alguns detalhes do que é o Portugal de hoje?


*          *          *

Nosso dia inicial da viagem foi dedicado a uma aproximação da cultura portuguesa utilizando o azulejo como elemento de entrada nesse universo. Desta forma, acompanhamos os séculos de desenvolvimento da arte da azulejaria em paralelo com o decorrer histórico de Portugal. Aproximamos o monumento vizinho ao nosso hotel (estátua do Marquês de Pombal) com o grande terremoto que transformou Lisboa, e pudemos ver no museu como era a configuração da cidade no período anterior ao sismo. Encontramos, ainda, agentes vivos da história e cultura lusa. 

Também no Museu Nacional do Azulejo, vimos painéis ilustrando a ascensão de um burguês. Esse é o elemento de ligação com o próximo dia de nossa viagem, quando nos dedicaremos a mergulhar no fantasioso mundo que a burguesia criou para si em propriedades privadas no Monte da Lua, em Sintra.

(Aviso: o próximo dia será fatigante, com longos passeios e caminhadas.)

-------------------------------------------------------------------------

Aqui futuramente serão colocadas informações práticas de deslocamentos nos pontos turísticos citados, para uso/interesse de terceiros.

-------------------------------------------------------------------------


Comentários

Postagens mais visitadas